1.
Uma bela casa nos Jardins. O maridão chega depois de um dia estressante na loja. Sua linda e fiel esposa espera-o ao na porta, toda limpinha e cheirosa. Dão uma bitoca.
Esposa – Como foi o trabalho?
Maridão – Bah.
Esposa - Ta cansado?
Maridão - To.
Esposa - Esquentei sua jantinha. Escalopinho de lingüiça. Tem cerveja gelada no freezer, do jeito que você gosta.
Maridão - Ta.
Esposa - Vai tomar banho primeiro?
Maridão - Vou comer, to com fome.
Esposa - Ta bom. Senta ai que eu te sirvo. Olha só que delícia. Amorzinho, posso te pedir uma coisa?
Maridão - Já to imaginando.
Esposa - Você sabe que eu te amo tanto, não sabe? Que é o melhor marido do mundo? Que é o amor da minha vida. Você não sabe disso? Que eu te amo muito muito muito pra sempre infinito?
Maridão (arrotando) - Blrrrrppppp
Esposa - Eu não faço tudo que o meu amorzinho pede? Então, você podia me fazer aquilozinho... vai...
Maridão - Porra, agora?
Esposa - É, vai? Aqui, ó. Vai?
Maridão - Bah! Toma, sua puta velha!
Dá-lhe uma murranca na cara. A esposa cai no chão gemendo de prazer.
Esposa - Hun... olha, ta sangrando....
Maridão - É, to vendo.
Esposa - Me dá outra?
Maridão - Não.
Esposa - Por favor?
Maridão - Não, porra. Degenerada do caralho. Vai apanhar na rua.
A esposa cata a bolsa, o casaco, e sai.
Esposa - Depois reclama. Hunpf.
2.
Junior e o maridão estão na loja da família fazendo a contabilidade do estoque.
Maridão - Lote de vinte e cinco maçaricos.
Junior - Confere.
Maridão - Dez arrombador de útero.
Junior - Confere.
Maridão - Quinze taco de beiseball.
Junior – An rã.
Maridão - Trinta caixa de rola média de chocolate.
Junior - Tudo aqui.
Maridão - Vinte de rola grande.
Junior - Ué. Vinte?
Maridão - É.
Junior - Peraí. Aqui só tem dezenove.
Maridão - Deixa eu ver.
O maridão conta as caixas e constata que está mesmo faltando uma.
Maridão - Ah, já sei quem pegou essa porra. Sua vó.
Junior - Ô velha que gosta de uma rola.
Maridão - Sabe porque isso acontece? Por que tu fica mimando a porra da velha. Velha tem que tratar na brutalidade.
Junior - Porra, pega leve com ela.
Maridão - Junior, deixa eu te explicar uma coisa: quando tu tiver precisando de dinheiro pra comprar crack, não precisa pedir. É só ir e pegar na bolsa da velha. Se ela reclamar, dá um bico na cara dela.
Junior - Mas eu gosto dela!
Maridão - Júnior! Cresce, meu filho! Tu já tá na idade de freqüentar a cracolândia, de ficar o dia zuretando na rua, de meter a vara nas danada! Mas não! Fica debaixo da asa da vó, batendo siririca naquela xota seca. Vou é agora pegar essa porra dessa rola!
3.
O maridão vai à casa da mãe, revoltado, em busca de justiça. Abre a porta no bico e lá está ela, no meio da sala, quicando na rola furtada.
Maridão - Ah! Velha doente! Você vai pagar por essa rola!
Velha - Vou, é? Com que dinheiro?
Maridão - AAhhhhhhhhhhhhh! Velha filha da puta!
Ele acha um taco de beiseball.
Maridão - E esse taco! Tinha sumido da loja também. Há quanto tempo tu tá me roubando, porra?
Dá-lhe uma tacada na cara e ela cai morta.
4.
Velório. Sob o púlpito, Júnior tergiversa sobre a grandeza e a pureza daquele ser humano tão único e insubstituível.
Junior - O que eu era antes de ser eu? Espero não entediá-los com minha pequena digressão filosófica, mas é um raciocínio que volta e meia me ocorre, que me persegue, que me intriga. Antes eu era um feto, certo? Na barriga da minha mãe. E antes disso era um espermatozóide nadando no saco do meu pai. Mas, e antes de ser um espermatozóide? O que eu era? Estou aqui remetendo a complexas interpretações de Aristóteles a respeito da origem e finalidade da metafísica ou me atendo a um sentimento universal, uma perplexidade provavelmente sentida por todos? Perplexidade essa que pode irromper a qualquer momento: escovando os dentes, de manhã. Dirigindo. No cinema, talvez. O que é e de onde vem essa coisa que nos faz perguntar, de repente, sem qualquer motivo aparente, e sem qualquer perspectiva de encontrar uma resposta: “de onde vim, afinal?” E, finalmente, “para onde vou?” Até ontem essa senhora, a minha vó, estava entre nós. Ela tinha suas manias. As coisas que gostava. Tinha defeitos também. E agora? Esse ser humano desapareceu? Completamente? E sua alma? O que houve com ela?
Qualquer Cinema
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
O pai do monstro
http://www.youtube.com/watch?v=YG4rpwL1CO0&feature=player_embedded
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terça-feira, 2 de novembro de 2010
O Homem Revoltado - DETRAN
Uma ferramenta abjeta usada com um único e miserável propósito de extorquir sistematicamente o cidadão. Um clã de burocratas mafiosos que se utilizam do sucateamento do trânsito. Um bando de escrotos que sugam, vampirizam e saqueiam o bolso do infeliz. Filhos da puta é o que eles são.
Outro dia chega na minha casa uma multa assim: “Você foi autuado por andar no dia tal na rua tal sem cinto de segurança. Valor: cento e quarenta reais.” Recorri. Escrevi a defesa, imprimi, xeroquei, peguei senha, enfrentei a fila, perdi uma tarde naquela merda daquele lugar. Fui mal atendido. Tempos depois, sai o resultado: “Sua defesa foi indeferida.” Vou ter que pagar a multa de qualquer jeito.
Viram só como além de me roubar ainda me fazem de otário? Como alimentam a ilusão de que posso argumentar e expor o meu ponto de vista? Não é coisa de gente muito filha de puta e desgraçada? Não merecem um tapa na orelha? E não me venham por a culpa no Sistema, que é a mesma coisa que por a culpa em Tudo e em Nada e em Porra Nenhuma ao mesmo tempo. São as porras das pessoas que trabalham lá. Preguiçosas, mas intencionadas, reacionárias.
Reacionárias, sim. Pelo menos é a desculpa pra fazer funcionar com tanta proeficiência a Lei Seca, que procura bêbados na madrugadas pra achacá-los. Reza a Iluminada Lei que se qualquer cidadão, em qualquer circunstancia, ingerir qualquer quantidade de álcool e depois pegar no volante, é um assassino e um vândalo e um baderneiro e um anarquista em potencial. Se o cidadão sai com a esposa, janta e toma um cálice de vinho, fudeu. Mesmo que more na ali na outra esquina, fudeu. Você simplesmente não pode dirigir ou vai ter que pagar mil reais e ficar um ano sem carteira. Uma porra de um ano inteiro sem carteira. E mil reais. Mil reais, caralho.
Isso por que eu mencionei o IPVA? O emplacamento? E a gente ainda tem que andar nessas porras de ruas esburacadas e fudidas feitas com cimento de isopor, seus filhos da puta do caralho, vermes, ladrões.
Outro dia chega na minha casa uma multa assim: “Você foi autuado por andar no dia tal na rua tal sem cinto de segurança. Valor: cento e quarenta reais.” Recorri. Escrevi a defesa, imprimi, xeroquei, peguei senha, enfrentei a fila, perdi uma tarde naquela merda daquele lugar. Fui mal atendido. Tempos depois, sai o resultado: “Sua defesa foi indeferida.” Vou ter que pagar a multa de qualquer jeito.
Viram só como além de me roubar ainda me fazem de otário? Como alimentam a ilusão de que posso argumentar e expor o meu ponto de vista? Não é coisa de gente muito filha de puta e desgraçada? Não merecem um tapa na orelha? E não me venham por a culpa no Sistema, que é a mesma coisa que por a culpa em Tudo e em Nada e em Porra Nenhuma ao mesmo tempo. São as porras das pessoas que trabalham lá. Preguiçosas, mas intencionadas, reacionárias.
Reacionárias, sim. Pelo menos é a desculpa pra fazer funcionar com tanta proeficiência a Lei Seca, que procura bêbados na madrugadas pra achacá-los. Reza a Iluminada Lei que se qualquer cidadão, em qualquer circunstancia, ingerir qualquer quantidade de álcool e depois pegar no volante, é um assassino e um vândalo e um baderneiro e um anarquista em potencial. Se o cidadão sai com a esposa, janta e toma um cálice de vinho, fudeu. Mesmo que more na ali na outra esquina, fudeu. Você simplesmente não pode dirigir ou vai ter que pagar mil reais e ficar um ano sem carteira. Uma porra de um ano inteiro sem carteira. E mil reais. Mil reais, caralho.
Isso por que eu mencionei o IPVA? O emplacamento? E a gente ainda tem que andar nessas porras de ruas esburacadas e fudidas feitas com cimento de isopor, seus filhos da puta do caralho, vermes, ladrões.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Piranhas 3D - Filmaço

Piranhas 3D é um filmaço. E vou dizer por quê.
Pouca gente deu a devida atenção a Serpentes a Bordo, que inaugurou um novo patamar de excelência em filmes de terror, que, num movimento altamente antenado e contemporâneo, estão se tornando cada vez mais terrir (terror com comédia). Olha o naipe do argumento: um avião está caindo. E, dentro dele, serpentes venenosas pulam em cima das pessoas e as chacinam. Se isso não é entretenimento concentrado, não sei mais o que é.
A capacidade de colocar o máximo de tensão no mínimo espaço de tempo é a regra no terror atual, ou pelo menos no terror juvenil de Holywood. Diretores e roteiristas esmeram-se na construção de máquinas de matar cada vez mais mortíferas e, com a ajuda dos efeitos especiais, são cada vez mais bem sucedidos. Em que pese a péssima qualidade do cinema que se tem feito nos EUA, os filmes de terror são pelo menos os mais honestos e não bancam o estilo filme-cabeça-com-enredo-de-ação, como o recente A Origem. São filmes adolescentes cheios de frisson, de explosões, de sangue, com belos closes da anatomia feminina.
E é curioso que logo um besteirol como esse tenha tanto a dizer a respeito da juventude norte-americana. Não se deve subestimar o caráter psicanalítico do enredo, encharcado de referências a expressão involuntária do Id e a manifestação violenta da libido em formas de pulsão de sexo e pulsão de morte. Não sou eu, mas Jung que diz, no paradigmático O Homem e Seus Símbolos: “Entre os motivos típicos (dos sonhos) estão a queda, o vôo, a perseguição feita por animais selvagens ou por pessoa inimigas, sentir-se insuficiente ou impropriamente vestido em lugares públicos, estar-se apressado ou perdido no meio de uma multidão tumultuada, lutar com armas inúteis ou estar sem meios de defesa, correr muito sem chegar a lugar algum.”
São essas as ferramentas que o diretor Alexandre Aja – que fez outro ótimo e ultra-violento filme de terror, Viagem Maldita – usa pra entreter o público. A trama é simples: um cardume de piranhas que mais parecem pit-bulls aquáticos invade um lago onde jovens curtem o Spring-Break, o feriado norte-americano no qual a galera exerce o sagrado direito a promiscuidade e ao hedonismo. Esses assustadores peixes carnívoros vão atacar garotões de sunga e lindas estudantes de biquínis minúsculos. Dificilmente poderia se pensar numa situação em que a vítima estivesse mais desprotegida, mais alheia. Matar gente inocente, bêbada e semi-nua não te parece uma idéia divertida?
E como Aja se divertiu! Consta que os sets eram abastecidos por caminhões-pipa de sangue artificial. Cada cena supera a outra em virtuosismo e bom humor: uma garota está tomando sol, com a bunda enfiada numa bóia de plático. As piranhas a atacam por baixo e a infeliz é tragada num turbilhão de sangue. Um garotão tem o pênis decepado e estraçalhado. Peitos, bundas, barrigas, coxas, tudo é devorado pela fúria das piranhas. Gente sem perna. Sem braço. Partida ao meio. Gente empalada: sim, as piranhas entram no corpo da vítima e saem pela boca. E o melhor, saem a poucos centímetros da sua cara, entre as vísceras que flutuam poeticamente na água.
Não entendo do assunto, mas tenho pra mim que o 3D em Piranhas foi muito eficaz. Diferente do uso grosseiro em filmes como Alice, de Tim Burton, em Piranhas a profundidade proporcionada pela tecnologia funciona de forma exemplar.
E, diferente de outros filmes nos quais os atores recitam blábláblás filosóficos, em Piranhas todos os diálogos são verossímeis, ágeis, todos dizem algo a respeito da cultura e da juventude norte-americana e o texto é coerente com o contexto. Daqui a muitos anos, Piranhas será um exemplar tão puro, tão espontaneamente simbólico do mundo em 2010, que fará definitivamente parte do rol dos Grandes Filmes da História do Cinema.
http://www.youtube.com/watch?v=fMlI6hVeB74
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Estréia da Coluna O Homem Revoltado
Quem nunca sentiu o sangue borbulhar de raiva? Quem nunca se sentiu esmagado perante alguma arbitrariedade burra e teve vontade de gritar: “Ei, peraí! Assim não!” Quem?
Segundo o filósofo francês Albert Camus, no seu belíssimo livro O Homem Revoltado, escrito em 1951 e publicado no Brasil pela Editora Record, um homem revoltado é alguém que diz NÃO. Esse NÃO significa algo como “as coisas já duraram demais”, “até aí, sim; a partir daí, não”, “assim já de demais” e “há um limite que você não deve ultrapassar.”
Camus disserta então sobre a Revolta Metafísica, a Revolta Histórica, o Terrorismo, o Niilismo e a Revolução, evocando grandes pensadores como Nietzsche, Dostoievsky e Marquês de Sade. Todos eles eram, a seu modo, revoltados. Contra a ordem social, a ordem religiosa, a ordem comportamental. Revoltaram-se contra o que estava estabelecido, desafiaram consensos, foram corajosos, polêmicos, perseguidos, humilhados. Sade, por exemplo, passou anos e anos preso numa masmorra por ter idéias extravagantes a respeito da sexualidade humana. Nietzsche ficou louco, epilético e morreu cercado de detratores. Dostoievsky era um bêbado e jogador compulsivo que afirmou, até hoje não se sabe se ironicamente, pois era um cristão fervoroso: “Se Deus não existe, tudo é permitido.”
É esse portanto o mote da próxima coluna que vocês, ilustres leitores e leitoras do site Qualquer Cinema, vão acompanhar semanalmente. Ela se chamará O Homem Revoltado e será escrita pelo cineasta brasiliense André Catuaba.
Instituições opressivas, injustiças, besteiras do cotidiano, tudo será matéria prima para o colunista expressar sua legítima revolta.
Semana que vem ele começa espinafrando esse órgão tão querido de todos os brasileiros, que nos ajuda tanto e nos deixa tão orgulhosos, o DETRAN!
Até lá!
Segundo o filósofo francês Albert Camus, no seu belíssimo livro O Homem Revoltado, escrito em 1951 e publicado no Brasil pela Editora Record, um homem revoltado é alguém que diz NÃO. Esse NÃO significa algo como “as coisas já duraram demais”, “até aí, sim; a partir daí, não”, “assim já de demais” e “há um limite que você não deve ultrapassar.”
Camus disserta então sobre a Revolta Metafísica, a Revolta Histórica, o Terrorismo, o Niilismo e a Revolução, evocando grandes pensadores como Nietzsche, Dostoievsky e Marquês de Sade. Todos eles eram, a seu modo, revoltados. Contra a ordem social, a ordem religiosa, a ordem comportamental. Revoltaram-se contra o que estava estabelecido, desafiaram consensos, foram corajosos, polêmicos, perseguidos, humilhados. Sade, por exemplo, passou anos e anos preso numa masmorra por ter idéias extravagantes a respeito da sexualidade humana. Nietzsche ficou louco, epilético e morreu cercado de detratores. Dostoievsky era um bêbado e jogador compulsivo que afirmou, até hoje não se sabe se ironicamente, pois era um cristão fervoroso: “Se Deus não existe, tudo é permitido.”
É esse portanto o mote da próxima coluna que vocês, ilustres leitores e leitoras do site Qualquer Cinema, vão acompanhar semanalmente. Ela se chamará O Homem Revoltado e será escrita pelo cineasta brasiliense André Catuaba.
Instituições opressivas, injustiças, besteiras do cotidiano, tudo será matéria prima para o colunista expressar sua legítima revolta.
Semana que vem ele começa espinafrando esse órgão tão querido de todos os brasileiros, que nos ajuda tanto e nos deixa tão orgulhosos, o DETRAN!
Até lá!
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Visão do inferno
http://www.youtube.com/watch?v=rolzns8VNvs
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
Coisa de cinema?
É recorrente a idéia de que há um grupo de pessoas ultra poderosas e influentes que decidem os movimentos das peças no tabuleiro do mercado global. Desde que Dan Brown prestou o desserviço de popularizar grupos como a Opus Dei e os Iluminati, então, virou moda imaginar que existe uma força sinistra por trás das engrenagens que movem o planeta. A vulgarização da noção se Sociedade Secreta popularizou grupos como Rosacruzes, Templários, Maçons e Carbonários. A ironia é que de secretas essas organizações não tem (quase) nada. Seus templos são abertos a visitação, as obras que os inspiram acessíveis a qualquer um, e os “passos” para se tornar um deles são facilmente achados na Internet.
Talvez essa fascinação por sociedades secretas e teorias da conspiração venha do fato de que o ser humano comum se sente tão insignificante, tão impotente diante dos acontecimentos, que inventa histórias sobre forças ocultas e pessoas inacessíveis que comandam, de alguma forma misteriosa, os nossos passos. Não é essa a abordagem de “The Bilderberg Conspiracy – Inside The World´s Most Powerfull Society”, escrito pelo norte-americano H. Paul Jeffers.
Inclusive, tratando-se de um assunto tão passível de manipulações sensacionalistas, Jeffers até que segura no tom sóbrio e imparcial ao contar a história dessa que, aí sim, é uma instituição capaz de decidir (ou deliberar) sobre o futuro, senão do planeta terra, pelo menos da civilização ocidental.
Todo pé sujo acaba achando seu chinelo velho, diz o ditado. Diga-me com quem andas e te direi quem é, reza a sabedoria popular. O sentido aqui é que os pares, os semelhantes, acabam se aproximando. Isso foi naturalmente levado ao paroxismo com a internet, na qual grupos de pessoas que nunca se viram juntam-se em comunidades virtuais com interesses específicos. O próprio conceito de Partido Político e de Movimento Social advém do mesmo princípio. Seria portanto ingênuo imaginar que pessoas muito poderosas não se procurassem para deliberar, conspirar e, por que não?, tomar um dry-martini e comer uns canapés. E é exatamente isso que fazem anualmente, desde 1954, quando houve a primeira reunião do grupo de Bilderberg.
É aí que Jeffers se volta para a história do diplomata austro-húngaro Joseph Retinger e do príncipe Bernhard da Holanda que, depois da Segunda Guerra Mundial, se uniram num esforço mútuo e contínuo pelo entendimento entre as nações européias em frangalhos e deram corpo a idéia de uma união continental. São ambos figuras simbólicas, Hetinger por vir de uma nação esmagada pelo imperialismo nazista, Bernhard por representar um país que sempre teve como tradição manter a neutralidade nos conflitos que periodicamente assolavam a região. A primeira reunião de “iniciados” se deu em 1954 e, menos de cinquenta anos depois, a União Européia era uma realidade política e econômica.
“Bilderberg” era o nome do primeiro hotel que abrigou a reunião, que passou a ser anual, e o nome pegou. Só “pica grossa” eram convidados: chefes de estado, ministros, executivos, empresários e membros da realeza européia. Mas com um diferencial: os encontros eram (e ainda são) fechados e exclusivos. Daí grande parte do interesse, da curiosidade, do alheamento do público a respeito do que acontece lá dentro.
Parte da áurea de mistério do grupo vem do seu exclusivismo e da proibição peremptória de que qualquer conversa ou debate seja gravado. Ao questionamento de que quando um grupo de pessoas tão poderosas se encontra elas devem alguma satisfação à imprensa e ao público, o contra-argumento está na ponta da língua dos seus correligionários: “A Constituição norte-americana também foi escrita a portas fechadas.”
De fato, não há nenhuma lei que proíba pessoas influentes de conspirarem a portas fechadas. A coisa pode até ser considerada antiética ou imoral, mas de forma alguma ilegal. Seria inclusive ingenuidade crer que eles (?) poderiam prescindir de tão suculenta oportunidade. Ali as pessoas podem falar a vontade, sem o superego da opinião pública, dos comentaristas políticos, sem medo de ferir as sensibilidades das minorias.
Pegue-se o exemplo da família Rockfeller: assíduos freqüentadores do Grupo, seus membros não têm exatamente uma agenda política. Eles não apóiam democratas ou republicanos, liberais ou conservadores. Antes, apóiam toda a estrutura do sistema econômico ocidental. Não é pouca coisa. Ao longo das décadas norte-americanos e japoneses foram sendo convidados a participar das reuniões com os europeus, sempre com a intenção de ampliar a Agenda Internacional da trupe. Aliás, a mais freqüente acusação ao grupo de Bilderberg é que ele defende uma agenda internacionalista que visa a diluição das fronteiras e a fragmentação das soberanias nacionais. Nacionalistas empedernidos ou apenas cidadãos desconfiados temem que no futuro haja um Governo Global quer tudo vê, tudo sabe e tudo vigia, nos moldes das distopias tão caras à ficção científica. Mais isso não seria uma ditadura nem do proletariado nem do ultra-liberalismo, mas sim do “bom senso” de meia dúzia de capitalistas devidamente assessorados por chefes de estados pragmáticos e esclarecidos.
Depois de ouvir relatos desde pessoas que acham as reuniões apenas um rendez-vous entre bilhardários que passam um fim de semana filosofando e comendo camarões até aqueles que as vêem como uma perigosa evidência de uma conspiração global, Jeffers deixa o assunto em aberto. Não sem antes terminar com um set list de convidados que fariam uma reunião burocrática da ONU parecer um piquenique de estudantes, como:
Secretários de Estado
Embaixadores
Senadores
Banqueiros
Executivos
E isso sem falar na realeza.
Talvez essa fascinação por sociedades secretas e teorias da conspiração venha do fato de que o ser humano comum se sente tão insignificante, tão impotente diante dos acontecimentos, que inventa histórias sobre forças ocultas e pessoas inacessíveis que comandam, de alguma forma misteriosa, os nossos passos. Não é essa a abordagem de “The Bilderberg Conspiracy – Inside The World´s Most Powerfull Society”, escrito pelo norte-americano H. Paul Jeffers.
Inclusive, tratando-se de um assunto tão passível de manipulações sensacionalistas, Jeffers até que segura no tom sóbrio e imparcial ao contar a história dessa que, aí sim, é uma instituição capaz de decidir (ou deliberar) sobre o futuro, senão do planeta terra, pelo menos da civilização ocidental.
Todo pé sujo acaba achando seu chinelo velho, diz o ditado. Diga-me com quem andas e te direi quem é, reza a sabedoria popular. O sentido aqui é que os pares, os semelhantes, acabam se aproximando. Isso foi naturalmente levado ao paroxismo com a internet, na qual grupos de pessoas que nunca se viram juntam-se em comunidades virtuais com interesses específicos. O próprio conceito de Partido Político e de Movimento Social advém do mesmo princípio. Seria portanto ingênuo imaginar que pessoas muito poderosas não se procurassem para deliberar, conspirar e, por que não?, tomar um dry-martini e comer uns canapés. E é exatamente isso que fazem anualmente, desde 1954, quando houve a primeira reunião do grupo de Bilderberg.
É aí que Jeffers se volta para a história do diplomata austro-húngaro Joseph Retinger e do príncipe Bernhard da Holanda que, depois da Segunda Guerra Mundial, se uniram num esforço mútuo e contínuo pelo entendimento entre as nações européias em frangalhos e deram corpo a idéia de uma união continental. São ambos figuras simbólicas, Hetinger por vir de uma nação esmagada pelo imperialismo nazista, Bernhard por representar um país que sempre teve como tradição manter a neutralidade nos conflitos que periodicamente assolavam a região. A primeira reunião de “iniciados” se deu em 1954 e, menos de cinquenta anos depois, a União Européia era uma realidade política e econômica.
“Bilderberg” era o nome do primeiro hotel que abrigou a reunião, que passou a ser anual, e o nome pegou. Só “pica grossa” eram convidados: chefes de estado, ministros, executivos, empresários e membros da realeza européia. Mas com um diferencial: os encontros eram (e ainda são) fechados e exclusivos. Daí grande parte do interesse, da curiosidade, do alheamento do público a respeito do que acontece lá dentro.
Parte da áurea de mistério do grupo vem do seu exclusivismo e da proibição peremptória de que qualquer conversa ou debate seja gravado. Ao questionamento de que quando um grupo de pessoas tão poderosas se encontra elas devem alguma satisfação à imprensa e ao público, o contra-argumento está na ponta da língua dos seus correligionários: “A Constituição norte-americana também foi escrita a portas fechadas.”
De fato, não há nenhuma lei que proíba pessoas influentes de conspirarem a portas fechadas. A coisa pode até ser considerada antiética ou imoral, mas de forma alguma ilegal. Seria inclusive ingenuidade crer que eles (?) poderiam prescindir de tão suculenta oportunidade. Ali as pessoas podem falar a vontade, sem o superego da opinião pública, dos comentaristas políticos, sem medo de ferir as sensibilidades das minorias.
Pegue-se o exemplo da família Rockfeller: assíduos freqüentadores do Grupo, seus membros não têm exatamente uma agenda política. Eles não apóiam democratas ou republicanos, liberais ou conservadores. Antes, apóiam toda a estrutura do sistema econômico ocidental. Não é pouca coisa. Ao longo das décadas norte-americanos e japoneses foram sendo convidados a participar das reuniões com os europeus, sempre com a intenção de ampliar a Agenda Internacional da trupe. Aliás, a mais freqüente acusação ao grupo de Bilderberg é que ele defende uma agenda internacionalista que visa a diluição das fronteiras e a fragmentação das soberanias nacionais. Nacionalistas empedernidos ou apenas cidadãos desconfiados temem que no futuro haja um Governo Global quer tudo vê, tudo sabe e tudo vigia, nos moldes das distopias tão caras à ficção científica. Mais isso não seria uma ditadura nem do proletariado nem do ultra-liberalismo, mas sim do “bom senso” de meia dúzia de capitalistas devidamente assessorados por chefes de estados pragmáticos e esclarecidos.
Depois de ouvir relatos desde pessoas que acham as reuniões apenas um rendez-vous entre bilhardários que passam um fim de semana filosofando e comendo camarões até aqueles que as vêem como uma perigosa evidência de uma conspiração global, Jeffers deixa o assunto em aberto. Não sem antes terminar com um set list de convidados que fariam uma reunião burocrática da ONU parecer um piquenique de estudantes, como:
Secretários de Estado
Embaixadores
Senadores
Banqueiros
Executivos
E isso sem falar na realeza.
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terça-feira, 12 de outubro de 2010
O fenômeno do Filme-Catarse

Sim, Tropa de Elite 2 é um filmaço, feito com coragem e competência. Mas como ao fim e ao cabo é um “filme de ação”, mesmo que crivado de sociologia, acaba se rendendo a algumas formulinhas prontas, que não tiram o seu mérito, mas convém serem lembradas.
1. O “efeito Macbeth”, peça de Shakspeare na qual os personagens vão sendo exterminados um a um. Em Tropa 2, todo conflito termina com a violação do outro, geralmente com uma bala na cabeça. O ser humano não passa de uma barata que deve ser exterminada sem maiores dilemas. Uma das cenas arquetípicas na transformação do brasileiro em inseto é essa:
http://www.youtube.com/watch?v=g9cXxAxiU50
2. O “efeito Plínio Marcos.” O dramaturgo fez história no teatro brasileiro ao usar e abusar do palavrão em cena. José Padilha, pra conferir verossimilhança a realidade carioca, coloca uma “porra” e um “caralho” na boca dos personagens até quando eles dizem coisas prosaicas como “me passa a salada?”
3. O “efeito Lupicínio Rodrigues.” Não bastasse ser um bastião da moralidade em meio a vagabundos e maconheiros, o Capitão Nascimento agora sofre a dor mais lancinante de todas, a dor de corno. Seu antípoda intelectual, um ativista de esquerda vivido por Irandhir Santos, casou-se com sua ex-mulher. Cada expressão fatigada do policial traduz o sentimento expresso pelo bardo gaúcho: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher? E depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços de um outro qualquer?”
Fora isso, o filme trata com pungente realismo o caos da cidade maravilhosa e se detém no problema das milícias. Mas foi assistindo no cinema que percebi que Tropa de Elite é um fenômeno cultural capaz de provocar catarse.
Era a sessão de duas da tarde de um domingo e o cinema estava lotado. Lá pelas tantas, o Capitão Nascimento espanca um deputado estadual corrupto. Não é um tapinha nem dois, é uma bela de uma surra com direito a esfregar-a-cara-no asfalto e muito chute-no-rim.
Nessa hora, presenciei algo que só tinha visto em festivais de cinema, quando toda a equipe está presente pra ser devidamente bajulada. O público aplaudiu euforicamente a cena. Gritavam uuu-hhhuuuu! E batiam palmas, felizes e com a alma lavada. Não é todo dia que se vê isso, por isso Padilha está de parabéns.
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A Globo vira-e-mexe mexe com você
http://www.youtube.com/watch?v=U_NLe2RKr9I
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Lula on drugs
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